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terça-feira, 2 de outubro de 2012

É possível prever qual será o seu desempenho em ciência nos próximos anos?

Publicado originalmente no SBlogI


Uma preocupação constante na ciência é medir, tudo deve ser capaz de ser expresso numa unidade física. Não é de estranhar que tal aspecto seja empregado em avaliar o próprio desempenho científico. Outra característica da ciência é o constante aperfeiçoamento. 
As primeiras medidas de desempenho científico (número de trabalhos publicados) são muito pouco sofisticadas, pois há trabalhos de grande qualidade como os há de qualidade muito duvidosa. Devo mencionar, contudo, que em geral a qualidade acompanha a quantidade em publicações científicas. 
O fator de impacto das revistas em que se publica adiciona alguma qualidade ao cálculo, já que as revistas de grande prestígio (quase) não aceitam trabalhos de baixa qualidade. Contudo, o fator de impacto de uma revista científica é obtido dividindo-se o número de  citações pelo número de trabalhos publicados, ou seja, muitos trabalhos ali publicados são citados menos que o fator de impacto da revista. Em alguns casos , bem menos que este indicador. 
Um outro avanço foi observar-se o número real de citações obtidas por cada um dos artigos em análise. Ainda restava a limitação de trabalhar com a média (ou algo similar) de citações obtidas, o que pode levar a conclusões falsas. Um, ou poucos artigos, com muitas citações podem elevar a média de citações de um determinado autor sem significar, necessariamente, qualidade maior que outro indivíduo. Como exemplo constate, usa-se o fato de um cientista que durante o seu pós-doutoramento teve oportunidade de trabalhar com alguém muito bom e colaborou em alguns trabalhos muito citados. Após este período, não teve mais artigos com elevado número de citações.
O índice h proposto por Jorge Hirsch “captures the quality (citations) and quantity (number) of papers, thus representing scientific achievements better than either factor alone. A scientist has an h­index of n if he or she has published n articles receiving at least n citations each. Einstein, Darwin and Feynman, for example, have impressive h­indices of 96, 63 and 53, respectively.”
Ainda resta o problema de que o índice h é uma medida útil para cientistas com uma carreira já estabelecida, pois, assim como outros indicadores, se baseia no passado. Como comparar então jovens cientistas em início de carreira? o que ocorre nos concursos de ingresso, por exemplo.
Um artigo recente na Nature (Future Impact: Predicting scientific success) analise o problema e propõe uma solução. Eles cegaram a uma fórmula capaz de incluir “number of publications, those in high­profile journals, the h­index and collaborators. One can also infer inter­ disciplinary breadth, the length and quality of training, the amount of funding received and even the standing of the scientist’s PhD adviser.” Eles lembram que tais fatores já são normalmente avaliados pelos comitês de forma subjetiva. O que eles conseguem no trabalho é colocar pesos para tais fatores. Para chegar à fórmula eles usaram um grande banco de dados sobre neurocientistas e empregaram técnicas de aprendizado de máquina (machine-learning techniques) e linear regression with elastic net regularization (seja lá o que isto for!). 
O gráfico da publicação mostra que o modelo tem uma grande capacidade de predição.
“The model predicted the future h­index accurately, yielding a respectable R2 = 0.67, cross­validated across scientists (an R2 of 1 would imply that the model predicts the data perfectly). A simplified model containing only the number of published articles, the h­index, years since first publication, num­ ber of publications in prestigious neuro­ science journals (Nature, Science, Nature Neuroscience, Neuron and the Proceedings of the National Academy of Sciences) and the number of distinct journals still performed nearly equally well (R2 = 0.66; see ‘Predict your future h­index’)”

Vale a pena ler o artigo (aqui).

Acuna, D. E., Allesina, S., & Kording, K. P. (2012). Future impact: Predicting scientific success. Nature, 489(7415), 201–202. doi:10.1038/489201a

As ilustrações são do artigo original.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Revisão por pares e cientometria por fator de impacto


Um artigo interessante do The Guardian sobre fator de impacto e revisão por pares. Como seria interessante que jornais brasileiros tratassem de temas sofisticados de ciência....

Veja trechos:

"One of the challenges faced by research funders – both public and private – is how to maximise the amount of work being done on important problems, without institutionalising any particular dogma which may suppress novel ideas. The most common arrangement is to fund good researchers but refrain from being overly prescriptive about outcomes, and, in turn, the way to identify good researchers has been to look at the publications that follow the research they fund.
In 1955, Eugene Garfield, the founder of the Institute for Scientific Information (now part of Thomson Reuters), introduced a means for identifying influential journals according to the number of times work appearing in them was cited. This process results in a number called the impact factor (IF), and it's build on the assumption that those whose works have been the most influential will be the most cited.
However, as anyone who's compared the Twitter following of, say, pop singerRihanna to astrophysicist Neil deGrasse Tyson knows, influence is only one dimension of importance. While useful for many (pre-digital) years, the IF system, not unlike some celebrities, is not aging gracefully. Not only has it been widely misapplied, it has also had some unintended side effects."
Leia o artigo todo aqui.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

A formação das melhores cidades para a ciência, usando a cientometria geográfica.


Há poucos dias a Nature publicou uma News Feature intitulada: Building the best cities for science. Which urban regions produce the best research - and can their success be replicated? (doi:10.1038/467906a; o pdf está livre no site).
Há algum tempo se observou que a maior parte das atividades científicas se concentra em algumas áreas metropolitanas (75 destes núcleos produzem cerca de 57% das publicações - 3,9 milhões de artigos entre 2006 e 2008). O ramo da ciência que mapeia os clusters de produção no espaço físico foi designado de 'spatial scientometrics', mas acho que a tradução de cientometria espacial é ambígua (a cientometria de artigos sobre ciência espacial? ou, em futuro próximo, de artigos produzidos no espaço?), pelo que prefiro a expressão cientometria geográfica.
O artigo busca analisar as características destes núcleos com a idéia que o entendimento do fenômeno pode ajudar a criação, ou planejamento de continuidade, de centros produtivos. Estudos anteriores se voltaram para análise de casos de sucesso enquanto este artigo faz uma análise mais abrangente ao usar comparações entre todos os centros mais produtivos. Vale a pena tomar cuidado com vários aspectos metodológicos: a identificação de cidades nas publicações não é tão precisa, assim como a determinação do número de pesquisadores ou de investimento. Pra além disto, o conceito de clusters de produção científica não é definido rigidamente por cidades, inclui cidades próximas. Bethesda é uma cidade do estado de Maryland mas incluído no cluster de Washington DC, por exemplo. Copenhague na Dinamarca e Malmö, na Suécia, integram o mesmo cluster depois da construção de uma ponte que as une. 
Veja no gráfico acima do post que estes clusters têm trajetórias e escolhas distintas. Austin investe em qualidade (eixo Y, impacto relativo de citação) mas que em quantidade (eixo X, número de artigo), enquanto Pequim mostra um esforço quantitativo não igualado pelo indicador de qualidade.  Mais uma vez devemos ressaltar os cuidados de análise devido à metodologia. O parâmetro de impacto relativo de citação contempla adequadamente o crescimento recente da ciência sínica? Para ilustrar, os chineses estão mesmo interessados em ciência básica forte citável ou em inovação tecnológica, patentes e geração de riqueza?
O artigo comenta também o que torna as cidades atraentes para a permanência dos cientistas líderes (neste caso baseado em estudo de caso já publicados). Como este é um aspecto importante, cito só os principais: freedom, funding and lifestyle. Liberdade de pesquisar segundo suas próprias idéias; Financiamento e infra-estrutura capaz de permitir a investigação com perguntas de ponta e qualidade de vida na cidade.
Como esperado, não há uma conclusão absoluta. A leitura do artigo é interessante e instrutiva, pode ajudar a decisão e planejamento.
Algo do apresentado no artigo explica a concentração científica observada no Brasil?