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segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

O potencial do uso de biomarcadores combinados: o caso da malária placentária oculta

ResearchBlogging.org
Post de Bruno Sangiorgi
Apesar dos eritrócitos serem o alvo do agente etiológico da malária, diversas complicações localizadas da doença, em órgãos como o cérebro e olhos, podem ocorrer devido ao sequestro dos eritrócitos nestes locais. Este é o caso da malária placentária oculta (OPM), uma forma de malária que ocorre na gravidez mas não pode ser detectada por métodos convencionais como macerado do sangue periférico. Mulheres com OPM podem apresentar complicações na gravidez e por isso é recomendado a aplicação de antimalariais independente da apresentação de sintomas da doença.
Esta administração indiscriminada de medicamentos pode ainda causar problemas, como efeitos colaterais, aumento de resistência do parasita, além do gasto desnecessário com os medicamentos. Visando otimizar este processo, recentemente foi publicado um estudo sobre a possibilidade de algumas proteínas presentes no sangue periférico, quando analisadas de modo conjunto, serem utilizadas como indicadores biológicos (biomarcadores) desta doença. A identificação dos biomarcadores para OPM poderia ser utilizado para direcionar o tratamento aos indivíduos cujas concentrações destas proteínas indiquem a presença da doença.
Para identificar os biomarcadores para OPM, comparações dos níveis de certas proteínas foram feitas entre dois grupos, “com OPM (n = 24)”: qual foram incluídas mães cujos parasitas foram detectados tanto no sangue periférico quanto na placenta, e “sem OPM (n = 326)”: cujos parasitas não foram detectados no sangue periférico e placenta. Tenho dúvidas se este foi o melhor delineamento experimental, pois houveram casos (n = 21) de parasitas detectados no sangue periférico mas não na placenta, sendo estes casos descartados. Quem sabe a formação de um terceiro grupo com estes casos, um grupo de “malária não-OPM”, poderia fornecer um ajuste fino na identificação de biomarcadores somente para OPM, discriminando casos de malária não placentária na gravidez.
De qualquer modo, das proteínas comparadas por curvas ROC entre ambos os grupos, níveis séricos de proteína-C reativa (CRP), fms-like tirosina kinase-1 tipo fms (sFlt-1) e leptina obtiveram, individualmente, modestas AUC em torno de 70. Para analisar o potencial conjunto destas proteínas em identificar indivíduos com OPM, valores foram atribuídos abaixo do cutoff para CRP ou acima para sFlt-1 e leptina, formando então um escore (biomarker score), que quando comparado entre os mesmos grupos, resultaram em uma curva ROC com AUC de 83 e 100% de especificidade. Além disso, outro escore foi elaborado somando a pontuação atribuída as curvas ROC das proteínas  com outra pontuação atribuída a variáveis clínicas (anemia e febre), gerando um novo escore (clínical + biomarker score) com AUC ligeiramente superior (85).
Tenho dúvidas acerca da aplicabilidade no uso de características clínicas juntamente a laboratoriais (dosagem das proteínas) em escores, devido a sua subjetividade e dificuldade de apuração, principalmente em casos quais o aumento no poder discriminatório é pequeno. O uso somente dos biomarcadores combinados, apesar de requisitar uma quantidade maior de análises laboratoriais (cada proteína foi quantificada por um kit de ELISA), pode funcionar como uma ferramenta poderosa, especialmente quando isoladamente as proteínas sugeridas não possuem uma capacidade satisfatória de discriminação. Apesar deste estudo específico ter seu foco na OPM, seu método relativamente simples de atribuir valores com base em concentrações acima ou abaixo da curva ROC pode ser aplicada em todo estudo qual mais de uma proteína esteja sendo avaliada.


Conroy, A.L., Liles, W.C., Molyneux, M.E., Rogerson, S.J., Kain, K.C. (2011). Performance Characteristics of Combinations of Host Biomarkers to Identify Women with Occult Placental Malaria: A Case-Control Study from Malawi PLoS ONE, 6 (12) : 10.1371/journal.pone.0028540

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Biomarcadores para malaria vivax, baseados na patogênese


Apresentação feita na XII Reunião Anual de Pesquisa em Malária, em Ouro Preto (MG) em 05.10.2010: "Developing biomarkers based on the immunopathogenesis of Plasmodium vivax malaria"



Ilustração: Fotografia em Ouro Preto feita do hotel onde fiquei.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Níveis de SOD-1 como biomarcador de gravidade na malária por P. vivax


ResearchBlogging.org
Novo trabalho do LIMI, no PLoS Neglected Tropical Diseases (Plasma Superoxide Dismutase-1 as a Surrogate Marker of Vivax Malaria Severity; doi:10.1371/journal.pntd.0000650) mostra que os níveis plasmáticos de SOD-1 são um marcador de gravidade na malária causada por Plasmodium vivax mais eficiente que os níveis de TNF-alfa, um marcador usado para P. falciparum
Veja o sumário do autor:
“Despite being considered a relatively benign disease, Plasmodium vivax infection has been associated with fatal outcomes due to treatment failure or inadequate health care. The identification of sensitive and reliable markers of disease severity is important to improve the quality of patient care. Although not imperative, a good marker should have a close causative relationship with the disease pathogenesis. During acute malaria, an intense inflammatory response and a well-documented oxidative burst are noted. Among the free radicals released, superoxide anions account for the great majority. The present study aimed to evaluate the reliability of using an antioxidant enzyme, responsible for the clearance of superoxide anions, as a marker of vivax malaria severity. Thus, we investigated individuals from an Amazonian region highly endemic for vivax malaria with the goal of predicting infection severity by measuring superoxide dismutase-1 (SOD-1) plasma levels. In addition, we compared the predictive power SOD-1 to that of the tumor necrosis factor (TNF)-alpha. SOD-1 was a more powerful predictor of disease severity than TNF-alpha in individuals with different clinical presentations of vivax malaria. This finding opens up new approaches in the initial screening of severe vivax malaria cases.”
Andrade, B., Reis-Filho, A., Souza-Neto, S., Raffaele-Netto, I., Camargo, L., Barral, A., & Barral-Netto, M. (2010). Plasma Superoxide Dismutase-1 as a Surrogate Marker of Vivax Malaria Severity PLoS Neglected Tropical Diseases, 4 (4) DOI: 10.1371/journal.pntd.0000650

domingo, 4 de abril de 2010

Defesa de Tese de Bruno de Bezerril Andrade

No dia 29 de abril, Bruno de Bezerril Andrade defendeu a sua tese de Doutorado com o título: Identificação de potenciais determinantes imunológicos de gravidade na malária humana.

A banca foi composta pelos Drs.: Antoniana Krettli, Edgar Marcelino de Carvalho Filho, Marilda Gonçalves, Mitermayer Reis e Manoel Barral-Netto (orientador).

Os diapositivos da apresentação de Bruno estão mostrados abaixo:


Não acertei a colocar o vídeo sem cortar parte dos diapositivos (se alguém souber como corrigir, favor colocar nos comentários), assim é melhor ver diretamente no YouTube aqui.
Procurei no são google e achei uma solução. Agora ficou menor que poderia.... e tem que alterar o HTML. Se alguém souber de forma mais fácil, agradeço a ajuda.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Dosagem de citocinas e quimiocinas contribui para avaliação de risco na síndrome coronariana aguda



Post de Manoel Barral e Bruno Andrade.

Post de divulgação de trabalho com participação do laboratório responsável pelo blog. Embora confiemos não haver conflito de interesse, pode haver viés de entusiasmo.
ResearchBlogging.org
Luis Claudio Correia, que publica temas interessantes em seu blog Medicina Baseada em Evidências, contribui também para a medicina embasada cientificamente através da geração de dados. Ele acaba de publicar, em colaboração com pesquisadores do LIMI, o artigo: “Prognostic value of cytokines and chemokines in addition to the GRACE Score in non-ST-elevation acute coronary syndromes(Luis C.L. Correia, Bruno B. Andrade, Valéria M. Borges, Jorge Clarêncio, Ana P. Bittencourt, Rafael Freitas, Alexandre C. Souza, Maria C. Almeida, Jamile Leal, J. Péricles Esteves, Manoel Barral-Netto. Clin Chimica Acta 411 (2010) 540–545. doi:10.1016/j.cca.2010.01.011).
Os pacientes com síndrome coronariana aguda com elevação não-ST estão sujeitos a riscos de recorrência de eventos durante a hospitalização. Se na chegada do paciente fosse possível determinar apropriadamente o verdadeiro risco ao qual o paciente está submetido, poderiam ser adotadas estratégias terapêuticas apropriadas para as situações individuais. Esta é assim, uma área de intensa investigação, com possibilidade de aplicação no cuidados aos pacientes.
A inflamação contribui para a desestabilização da placa de ateroma e, assim, ser relaciona com doença coronariana. Há publicações demonstrando que biomarcadores inflamatórios são preditores de risco na recorrência de eventos na síndrome coronariana aguda, independentemente dos fatores tradicionalmente utilizados. O próprio grupo de Luis Claudio publicou recentemente um artigo que demonstra que a proteina C reativa é um preditor de risco (Correia LC, Lima JC, Rocha MS, D'Oliveira JA, Pericles EJ. Does high-sensitivity. C-reactive protein add prognostic value to the TIMI-Risk Score in individuals with non-ST elevation acute coronary syndromes? Clin Chim Acta 2007;375:124–8).
Nesse contexto, para que um novo marcador seja realmente incorporado na prática clínica e seja utilizado no manuseio dos pacientes é necessário que demonstre ser capaz aumentar o poder de estratificação de riscos além dos modelos preditivos já existentes. Assim no trabalho de 2007, o grupo demonstrou que a avaliação da proteina C reativa adicionava valor preditivo ao escore de risco denominado TIMI, em pacientes com síndrome coronariana aguda não-ST.
A avaliação do risco individual na admissão de pacientes com síndrome coronariana aguda é realizada utilizando escores de risco, os quais incluem estimativas clínicas e/ou laboratoriais. No momento, o escore de risco validado e com maior aceitação é o escore GRACE (de Araujo GP, Ferreira J, Aguiar C, Seabra-Gomes R. TIMI, PURSUIT, and GRACE risk scores: sustained prognostic value and interaction with revascularization in NSTE- ACS. Eur Heart J 2005;26:865–72).
No estudo agora publicado com a colaboração do LIMI, foi avaliado se a dosagem de citocinas e quimiocinas adiciona valor ao risco previsto pelo GRACE. A determinação de um escore inflamatório, baseado na dosagem de citocinas (IL-1beta, L-6, IL-10, IL-12p70, e do receptor solúvel tipo I de TNF-α), quimiocinas (IL-8, CCL5, CXCL9, CCL2, and CXCL10) foi capaz de aumentar a capacidade prognóstica do GRACE.
Embora promissor, este dado deve ser analisado com a cautela necessária por ter sido obtido numa amostra relativamente pequena. Será necessário que estudos posteriores com amostragem maior e também por estudos realizados por outros grupos confirmem estes achados. Caso se confirme o valor potencial do escore inflamatório na previsão de risco coronariano, restarão as preocupações com o custo da incorporação de tais dosagens na prática médica.
Veja o resumo do trabalho:
“Background: Increased cytokine and chemokine levels are associated with cardiovascular events in patients with non-ST-elevation acute coronary syndromes (ACS), but the incremental prognostic value of these inflammatory markers is not known. We determined if cytokine and chemokine assessment adds prognostic information to the GRACE Score in patients with ACS.
Methods: Five cytokines (interleukin (IL)-1β, IL-6, IL-10, IL-12p70, and tumor necrosis factor (TNF)-α soluble receptor I), five chemokines (IL-8, CCL5, CXCL9, CCL2, and CXCL10) and C-reactive protein (CRP) were measured at admission of 87 patients admitted with ACS. Results: During hospitalization, the incidence of cardiovascular events was 13% (7 deaths, 1 nonfatal acute myocardial infarction, and 3 refractory unstable angina). Individuals who developed events had significantly greater levels of CRP, IL-1β, IL-12, TNF-α, IL-8, CXCL9 and CCL2, compared with those free of events. Thus, these markers were used to build an Inflammatory Score, by the input of one point for each of these variables above the 75th percentile. After adjustment for the GRACE Score, the Inflammatory Score independently predicted events (OR = 1.80; 95% CI = 1.12–1.88). Incorporation of the Inflammatory Score into the GRACE Score promoted a C-statistics improvement from 0.77 (95% CI=0.58–0.96) to 0.85 (95% CI = 0.71–1.0). Net reclassification improvement obtained with GRACE–Inflammatory Score was 13% (P=0.007), indicating a significant reclassification. When only CRP was incorporated into GRACE, the increase on C-statistics was not relevant (from 0.77 to 0.80).
Conclusion: Cytokines and chemokines measured at admission add prognostic information to the GRACE Score in patients admitted with ACS.”
Esta colaboração do LIMI representa um esforço do grupo no investimento de investigações aplicadas que buscam a resolução de problemas práticos. Além de estudos sobre imunopatogênese, o rastreamento de biomarcadores deve ser estimulado na medida em que pode trazer inúmeros benefícios na prática médica. Para tanto, colaborações, valiosas como essa com o Luís Cláudio são fundamentais. 

Correia, L., Andrade, B., Borges, V., Clarêncio, J., Bittencourt, A., Freitas, R., Souza, A., Almeida, M., Leal, J., & Esteves, J. (2010). Prognostic value of cytokines and chemokines in addition to the GRACE Score in non-ST-elevation acute coronary syndromes Clinica Chimica Acta, 411 (7-8), 540-545 DOI: 10.1016/j.cca.2010.01.011