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sábado, 18 de setembro de 2010

Nossa pátria é nossa língua? ou Um português ataca o português.



Post originalmente publicado no endereço anterior doSciencia Totum em 14.fevereiro.2009. Devido a problema de acesso, reproduzo aqui para facilitar a sua citação em outro post.
No blog De Rerum Natura o filósofo Desidério Murcho colocou uma resposta muito interessante à defesa do uso da língua portuguesa feita por  João Boavida no mesmoblog e divulgada no blog do LIMI-LIP em 09 de fevereiro. (Fiquei intrigado, será tudo gozação dos portugueses? Um Murcho contestando um Boavida?). Mesmo com esta preocupação, os textos me parecem bons. Vejam alguns trechos do Murcho:
“a defesa da Nossa Língua e da Nossa Cultura. E a questão fundamental que se coloca é por que haveria alguém de querer defender tal coisa; por ser Nossa? 
... parece que estamos a falar de defender que não se deve matar pessoas; ... Mas matar uma cultura ou uma língua é outra coisa completamente diferente. ... As pessoas apenas deixam de usar uma dada língua e passam a usar outra; .... Imagine-se que a língua portuguesa já tinha morrido no séc. XVIII. Não teríamos Eça nem Saramago? Tolices. Claro que teríamos. Só que eles escreveriam e sentiriam as coisas noutra língua qualquer — o castelhano, por exemplo, o que seria bem melhor para eles. .... 
O segundo aspecto é que muitas línguas são puras mentiras políticas, inventadas por políticos espertos que queriam dividir para conquistar. É o caso da língua portuguesa. Não é mais do que latim à toa, que depois foi trabalhosamente aperfeiçoado numa nova língua,  ...
O importante, em suma, é olhar para as pessoas em vez de deixarmos de as ver porque estamos a olhar para abstracções. Perguntemo-nos o que é realmente importante para os nossos jovens estudantes. ... para eles é importante o mesmo que é importante para os jovens estudantes dinamarqueses, suecos ou israelitas: que a língua inglesa lhes seja tão própria quanto a língua portuguesa, porque isso será para eles o passaporte de acesso à maior bibliografia que o planeta já conheceu. ... E este facto é que conta. ... A única coisa má nisto é que hoje, porque não há a coragem política de fazer da língua inglesa a língua escolar oficial em Portugal e no Brasil, os alunos andam perdidos a ler tolices mal traduzidas, porque não dominam uma língua culta. E os que a dominam é porque ou são ricos e andaram nos melhores colégios, ou se esforçaram pessoalmente.”

Agora resta esperar para ver se o Boavida fica murcho ou contesta  o Murcho à altura. Eu também penso que deveríamos iniciar o ensino de inglês seriamente mais cedo nas escolas.

Opção da linguagem científica: Português ou inglês?


Post originalmente publicado no endereço anterior do Sciencia Totum em 09.fevereiro.2009. Devido a problema de acesso, reproduzo aqui para facilitar a sua citação em outro post.
Há alguns anos a Sociedade Brasileira de Imunologia decidiu que todas as apresentações realizadas nos seus congressos, incluindo aquelas feitas por brasileiros, deveriam ser em inglês. Esta atitude se somava às decisões anteriores de diversas revistas científicas brasileiras de publicarem os artigos em inglês. No LIMI e no LIP, as apresentações de trabalho em andamento e a de discussão de artigos devem ter os diapositivos escritos em inglês. Os estudantes foram estimulados a apresentar em inglês, mas até o momento nenhum se aventurou.

Fui entusiasticamente favorável a estas medidas, por entender que inglês é a língua oficial da ciência moderna.  Quem deseja fazer ciência deve ser capaz de se comunicar com pessoas de diferentes países. A forma mais fácil de fazê-lo é todos se entenderem numa única língua. Imaginem um congresso com pessoas falando cada um a sua própria língua. Poucos (nenhum?) poderiam acompanhar as apresentações em holandês, alemão e russo. Imaginem em coreano, chinês e javanês, por exemplo.

Contudo, comecei a ficar em dúvida sobre os limites do uso do inglês ao ver o cartaz do congresso da SBI (2008) em inglês. Não saberia explicar bem porque, nem estabelecer os limites de onde usar inglês, mas achei que não seria necessário fazer o cartaz em inglês.  Também assim, pensei na linguagem deste sítio e do blog do LIMI e LIP. Se pretendem divulgar a ciência, porque não escrevê-los em inglês?

As minhas dúvidas se aprofundaram ao ler um texto sobre o uso da língua inglesa no De Rerum Natura, um interessante blog português. O post Podem destruir-se as culturas?, “post convidado de João Boavida, antes publicado no Diário As Beiras, sobre um assunto que, tanto é olhado como desprovido de interesse reflexivo, como é posto no cerne da identidade cultural: a língua ou línguas que usamos para pensar e comunicar.”

O texto merece ser lido. Seguem uns trechos:
“O poder americano, económico e político, a investigação científica, as universidades e a maciça colonização audiovisual tornaram o inglês língua dominante.
Mas, devemos promovê-la diligentemente, ou tomar algumas distâncias sanitárias? Há quem veja aqui um dilema: se aceitarmos o facto, engrossamos o caudal e afundar-nos-emos, como cultura, na corrente cada vez mais forte; se reagimos e a rejeitamos, ficaremos isolados, longe dos da frente na economia e na ciência, aumentando o nosso atraso.
....
Quando os cientistas só falarem e escreverem em inglês e os alunos tiverem que falar inglês nas universidades, o inglês acabará por vir para as ruas, transformando as outras línguas numa misturada, como aconteceu com o baixo latim. Ou então cientistas e homens cultos fechar-se-ão em grupos, isolados da população ignara, acabando por tirar às culturas o alimento que lhes dá vida e força.”

Bem, a opção do baixo inglês pode não ser tão ruim. Melhor isto que ter que aprender um baixo chinês....


Ilustração da “bandeira” do blog Hey Dog