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quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Consumo Global de Álcool


O mundo bebeu um equivalente a 6.1 litros de álcool puro, por pessoa, em 2005, de acordo um boletim da WHO, publicado dia 11 de fevereiro. Os maiores consumidores são encontrados na Europa e nas antigas nações Soviéticas. O povo da Moldávia é o mais animado, consumiu cerca de 18.2 litros, per capta (!), duas vezes mais que o povo da república Tcheca, que ficou em segundo lugar.
No caso dos Moldavianos, mais de 10 litros do álcool consumido derivam de produção artesanal, não comercial, e que, possivelmente, pode causar mais danos à saúde. Esse hábito representa quase 30% do consumo mundial.
A WHO estima que o álcool resulta em 2.5 milhões de mortes anuais, mais que a AIDS ou a tuberculose. Na Russia e nações satélites, um em cada cinco homens morre por causa da bebida. Veja acima a situação do Brasil no "booze map".

Fonte: The Economist

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Consumo de álcool e melhora da artrite reumatóide


Uma notícia boa para o final de semana que se aproxima, ainda mais nesta época que as noites são, ainda, frescas. Poderá servir ainda para afastar a idéia que sexta-feira 13 dá azar. Devo advertir, contudo, que a notícia como dada aqui, talvez não passasse pelo crivo do NHS Choices e sua análise crítica.
O título: O consumo de álcool é inversamente associado com risco e gravidade da artrite reumatóide não é meu, é uma tradução literal do trabalho Alcohol consumption is inversely associated with risk and severity of rheumatoid arthritis, publicado no Rheumatology (doi:10.1093/rheumatology/keq20). Este não é um conceito novo. O possível efeito benéfico do álcool sobre a artrite reumatoide já foi avaliado em outras publicações, porém em grande parte testada em animais experimentais.
O estudo é robusto, envolveu 873 pacientes com artrite reumatoide e 1.004 controles. A frequencia de consumo de álcool foi registrada pelos participantes um questionário. As odds ratios de risco de artrite reumatóide foi calculada de acordo com o consumo de álcool e ajustada por idade, gênero e tabagismo. 
O risco de artrite reumatóide diminuiu de acordo com a frequencia de consumo de álcool. Os abstêmios tiveram um odds ratio para artrite reumatóide de 4,17 comparado com indivíduos que consumiam álcool mais de 10 dias por mês, numa diferença estatisticamente significante (P for trend <0.0001). 
Além disto, todas as medidas de gravidade da artrite reumatóide, incluindo a proteína C reativa, a escala visual de analogia de dor e o escore de Larsen tiveram uma relação inversa com o aumento do consumo de álcool, e esta relação foi também estatisticamente significante. O benefício foi observado em ambos os gêneros, embora mais pronunciado em homens.
Os autores chegam à conclusão clara:
Although there are some limitations to this study, our data suggest that alcohol consumption has an inverse and dose-related association with both risk and severity of RA.

Em entrevista sobre o artigo, os autores foram cautelosos e afirmaram que seus resultados são preliminares e que não recomendariam aos pacientes a ingestão de álcool para tratar da artrite. Além disto, lembraram que os pacientes devem observar os limites indicados para consumo de álcool.
Na discussão os autores registram as limitações do estudo:
“First, there are marked gender and age differences between the RA and control groups in this cohort. All analyses have therefore been adjusted for these factors, but we appreciate that this remains a weak- ness. 
Secondly, the study is retrospective in design and there is therefore a risk that recall bias may have influenced the participants reporting their alcohol consumption, and also a significant risk that drinking behaviour in patients with RA may have been influenced by the diagnosis of RA or their subsequent treatment. 
Furthermore, the alcohol consumption data on which this study is based represent a snapshot of drinking behaviour at one point in time. Some outcome measures of the study, such as mHAQ, pain VAS, CRP and DAS-28CRP, are also single time-point measurements recorded concordantly with drinking behaviour, and we can there- fore have reasonable confidence in the validity of the associations demonstrated.”
Considerando as limitações, provavelmente será necessário confirmar este estudo. Se forem fazer alguma pesquisa desta por aqui, eu me candidato a participar do grupo teste.


domingo, 7 de fevereiro de 2010

Imunologia da ressaca

ResearchBlogging.org
Originalmente publicado em 10.fev.2009 no antigo site do LIMI-LIP.
Este post é uma contribuição para os preparativos do carnaval. Praticamente todo mundo já sofreu com ressaca. O conjunto de sintomas e promessas (Nunca mais beberei!) são muito conhecidos. O consumo excessivo do álcool (acima de 1.0 g/kg de peso) leva a uma sensação de miserabilidade composta de tontura, fraqueza, boca seca, enjôo, sudorese, náusea, hiperexcitabilidade, ansiedade, problemas de concentração etc. 
Cientificamente, esta constelação pode ser tabulada:

Há vários problemas metodológicos na pesquisa sobre os efeitos do álcool, um deles é o fato de ser muito difícil o uso do placebo. O estudo acima é um dos poucos com controle por placebo, mas mesmo assim há críticas sobre como usar o placebo. Não, não é porque todos querem ficar no grupo experimental. É difícil um estudo controlado por placebo pela dificuldade de fazer um placebo tão bom quanto o álcool. Se o tempo e a sobriedade permitirem discutiremos a história da produção de álcool por todas as culturas desenvolvidas em outro post.
Apesar das dificuldades de avaliação, são considerados efeitos diretos do álcool:
• Desidratação
• Desequilíbrio eletrolítico
• Distúrbio gastro-intestinais
• Hipoglicemia
• Distúrbio do sono e do ritmo biológico.
Entre as dificuldades de explicação dos efeitos do álcool está a observação de que a ressaca só ocorre quando a concentração de álcool no sangue voltou a zero. Assim, a ressaca ocorre DEPOIS que o álcool e seus metabólitos foram eliminados do organismo.
É predominante a idéia que a desidratação é a principal causa dos sintomas da ressaca. Esta crença não é cientificamente provada. Na verdade há poucos estudos sobre as alterações biológicas e eles mostram efeitos endócrinos e acidose metabólica provavelmente ligados à desidratação (e à sensação de boca seca e sede). 
O que é muito menos conhecido é a alteração do sistema imune. Há uma interessante revisão recente sobre o assunto que analisa diversos aspectos. 
A ressaca está relacionada com aumento de IL-12 e de IFN-gama. É provável que os efeitos de comprometimento da memória e alterações do humor estejam ligados a este aumento de citocinas pró-inflamatórias. 
A liberação periférica de citocinas leva à produção de citocinas no sistema nervoso central e a glia e os neurônios possuem diversos receptores de citocinas, especialmente no hipocampo (relacionado com a memória).
Os efeitos das citocinas são semelhantes aos sintomas centrais da ressaca. Há muito se sabe que citocinas como IL-1, IL-6 e TNF-alfa são responsáveis pela constelação de sintomas de doenças (fraqueza, perda de apetite, hipoatividade, sonolência e dificuldade de concentração).
Parodiando São Cipriano: Extra immunologiam nulla salus.
Estes estudos levam a pensar que a inibição da produção de citocinas pró-inflamatórias pode funcionar como tratamento para a ressaca. Isto não foi testado (ou pelo menos não foi publicado). No campo das substâncias contra ressaca há também muito pouca evidência científica.
Se alguém for planejar um ensaio clínico para testar drogas inibidoras de citocinas pró-inflamatórias na ressaca terá um boa chance no carnaval. A disponibilidade de casos será grande. Por outro lado, há diversos cuidados éticos e metodológicos a enfrentar.
Se não for fazer o estudo, melhor também não servir de voluntário, ressaca não é nada agradável.
A foto da criança com cara de ressaca é encontrada em muitos sítios da internet e muito difícil de determinar a fonte primária.

Verster, J. (2008). The alcohol hangover-a puzzling phenomenon Alcohol and Alcoholism, 43 (2), 124-126 DOI: 10.1093/alcalc/agm163