quinta-feira, 10 de março de 2011

Dê aos pós-docs uma carreira, e não promessas vazias - coluna de Jennifer Rohn na Nature


Falando de mulheres atuantes, após o 8 de março: a bióloga celular da University College London é também novelista e editora da revista eletrônica de ciência e cultura LabLit, além de ter sido blogueira da Nature Network (nature.com blogs). Veja o seu blog Mind the Gap na página atual.

Ela escreveu recentemente na coluna World View da Nature sobre um assunto polêmico que - apesar de ser muito claro para quem conhece a carreira em ciência de perto - passa desapercebido na academia e é cochichado a baixa voz nos círculos de estudantes de doutorado e pós-doutorado. A carreira traz muito poucas oportunidades de um emprego estável, que dependem muito (se você for pessimista, quase que mais) da sorte de estar no lugar certo, na hora certa do que do próprio currículo e capacidade de trabalho, e o sistema força os jovens cientistas, que são formados em base regular em uma quantidade muito superior ao número de postos de trabalho (bem?) remunerado e dentro das leis trabalhistas, a guerrear por estas poucas vagas, enquanto destina uma quantidade grande de jovens formados com grande gasto público a salários baixos sem benefícios até finalmente estarem “velhos” demais para o sistema e terem de recomeçar de forma frustrante em carreiras para as quais estão treinados demais.

Um problema em nível mundial, para o qual soluções são urgentemente demandadas. Vale a reflexão!

quarta-feira, 9 de março de 2011

Science Paparazzi



Se você cientista pensa que só os camarotes da Sapucaí recebem o assédio dos fotógrafos, se enganou! Nos EUA (onde mais?) os cientistas são assediados tal e qual os famosos, eles viraram celebridade. Stephen J. Gould , professor de Harvard s super-famoso disse que não aguenta mais tanto assédio: "Eles estão atrapalhando minha vida, a dos meus colegas, minha família e amigos. Alguém tem que impedir isso!". Segundo Gould, os fotógrafos permanecem estacionados, 24h, na entrada de qualquer local onde Gould esteja trabalhando, incluindo lugares "quentes" como a Clínica Mayo, laboratórios do MIT e Princeton e até o Centro de Pesquisa Astrofísica na Antárctica. A situação está tão ruim que os cientistas são obrigados a utilizar saídas alternativas e a segurança tem que ser aumentada quando os mesmos participam de congressos.

Os paparazzi, por sua vez, alegam que estão atendendo um desejo do público, provendo um serviço a milhões de americanos que seguem de perto a carreira dos físicos, botânicos e matemáticos considerados top. "Neste país, as pessoas querem saber das descobertas científicas e também da vida pessoal daqueles que fazem estas descobertas". De fato, um pesquisador americano está processando a revista alemã Stern por publicar fotos suas e de sua namorada, pelados, tomando banho de sol.

E o que dizem os fãs? "Estes cientistas são os mais importantes, suas descobertas vem permitindo que vivamos mais tempo, elucidando os mistérios do universo e do nosso planeta. Eles quererem trabalhar sem o assédio é impossível. É até risível". Leia mais

Como dizem por aí: only in America.

terça-feira, 8 de março de 2011

DIA INTERNACIONAL DA MULHER


O Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de março, tem como origem as manifestações das mulheres russas por "Pão e Paz"- por melhores condições de vida e trabalho e contra a entrada de seu país na Primeira Guerra Mundial. Entretanto, a ideia de celebrar um dia da mulher já havia surgido anteriormente a 1917, no contexto da luta das mulheres por melhores condições de vida e de trabalho, bem como pelo direito de voto. Leia mais



O Dia Internacional da Mulher é uma oportunidade para prestar reverência à realizações das mulheres e para chamar atenção para as necessidades e preocupações das mulheres na agenda regional, nacional e global. Este ano, o dia 8 de março será focado no tema da violência contra as mulheres.


O quadro acima é um ícone cultural (nos EUA) que representa as mulheres que trabalharam nas fábricas durante a Segunda Guerra Mundial. Essas mulheres substituíram os trabalhadores homens que haviam ido para a batalha. Para mim, desde que vi pela primeira vez, esta imagem de J. Howard Miller representa o que nós mulheres temos de melhor: a capacidade de fazer qualquer coisa.

Saúdo todas a mulheres do planeta. Hoje, no nosso dia, e sempre.
Como diz a canção:
If I have to
I can do anything
I am strong
I am invincible
I am woman

segunda-feira, 7 de março de 2011

Regulação da diferenciação de células T auxiliares (T helper) em células efetoras: influência de vias associadas ao metabolismo celular



ResearchBlogging.org





Post de Elisabete Lopes


A cinase mTOR é um membro conservado da família kinase PI(3)K (phosphatidylinositol-3-OH kinase) que regula o metabolismo, síntese de proteínas, balanço energético, proliferação e sobrevivência celular. Esta cinase (PI(3)K) constitui o núcleo de dois complexos de sinalização distintos, cuja ativação é regulada por vias diferentes, o complexo mTOR 1 (mTORC1) e o complexo mTOR 2 (mTORC2), e o estudo das vias de sinalização associadas a esta cinase foi bastante motivado pelo seu envolvimento no metabolismo, crescimento e proliferação de células cancerosas [1].

O mTORC1 possui uma proteína adaptadora conhecida como Raptor, bem como as subunidades mLST8, PRAS40 e Deptor. A ativação do mTOR1 é dada através da sinalização das cinases PI(3)K, PDK1 e Akt. Este complexo promove a fosforilação dos reguladores de translocação S6K1 e 4E-BP1, regulando o crescimento celular e proliferação pela modulação do metabolismo. O segundo complexo de sinalização, o mTORC2, possui uma proteína adaptadora conhecida como Rictor, bem como as subunidades mLST8, mSIN1 e Protor. O mTORC2 promove a fosforilação das cinases Akt (Ser473), SGk1 e PKC-α. As células T CD4+ deficientes de mTOR falham na diferenciação em células efetoras dentro das condições apropriadas, e após a ativação estas células deficientes em mTOR, diferenciam-se em células T regulatórias Foxp3+. A incapacidade destas células deficientes em se diferenciar em células efetoras está associada à deficiência da ativação dos fatores de transcrição STAT4, STAT6 e STAT3 em resposta às citocinas IL-12, IL-4 e IL-6, respectivamente.

Uma pequena GTPase isolada do sistema nervoso central chamada Rheb, é uma reguladora importante da sinalização do mTORC1. Esta GTPase consiste de duas proteínas, a Rheb 1 e a Rheb2 e ambas são expressas nas células T e interage com o mTORC1 estimulando sua atividade. Alguns estudos avaliando a atividade do mTORC1 na diferenciação das células T, demonstraram que esta via de sinalização interfere na capacidade das células T se diferenciarem em células TH1 efetoras.

Neste estudo [2] publicado na Nature Immunology os autores estudaram a importância da via de sinalização mTOR, avaliando a diferenciação das células T em células TH1, TH17 e TH2 efetoras, através atividade do complexo mTORC1 via deleção da Rheb e do complexo mTORC2 via deleção da proteína Rictor.

O estudo mostrou que a Rheb regula a ativação do mTORC1 nas células T, através da fosforilação da S6K1. As células T dos camundongos deficientes para a Rheb possuem menor fosforilação da S6K1, uma proteína adaptadora indicativa da atividade do mTORC1.

O estudo também mostrou que a inibição da atividade do mTORC1 via deleção da Rheb inibe a diferenciação das células T em células TH1 e TH17 efetoras, apesar destas células manterem sua capacidade proliferativa. Esta falha na diferenciação é observada na diminuição da produção de IFN-γ e IL-17, entretanto, estas células deficientes não perdem sua capacidade em se diferenciar em células TH2 (Figuras a, b e c).

Em razão da falha na capacidade de diferenciação em células TH1 e TH17 efetoras, os camundongos knouk out para a Rheb foram resistentes ao desenvolvimento da EAE clássica, mas 60% dos camundongos apresentaram EAE não clássica característica da resposta TH2.

A avaliação da atividade do mTORC2 através da deleção da proteína Rictor foi demonstrada através da fosforilação da proteína Akt (Ser473) e estudo mostrou que as células deficientes da Rictor falham na diferenciação em células TH2 efetoras, mas preservam a capacidade de se diferenciarem em células TH1 e TH17 (Figuras d e e).

O estudo demonstra a importância da via de sinalização dos complexos mTORC1 e mTORC2 na regulação da diferenciação celular e que as falhas nestas vias podem implicar no desenvolvimento de respostas inflamatórias exacerbadas ou doenças auto-imunes.


Referências:

[1] Guertin, D.A. & Sabatini, D.M. Defining the role of mTOR in cancer. Cancer Cell .12, 9–22; 2007.

[2] Delgoffe, G., Pollizzi, K., Waickman, A., Heikamp, E., Meyers, D., Horton, M., Xiao, B., Worley, P., & Powell, J. (2011). The kinase mTOR regulates the differentiation of helper T cells through the selective activation of signaling by mTORC1 and mTORC2 Nature Immunology DOI: 10.1038/ni.2005

sábado, 5 de março de 2011

Best Practice in Systematic Reviews: The Importance of Protocols and Registration

ResearchBlogging.org




Post de Maurício Cardeal


Quero inicialmente agradecer ao Sciencia totum circumit orbem ao convite para participar desse sítio através de alguns breves comentários sobre o editorial da PLoS Medicine intitulado Best Practice in Systematic Reviews: The Importance of Protocols and Registration.

No presente editorial os autores tecem argumentos que justifiquem o registro de revisões sistemáticas para, em seguida, anunciar o apoio da PloS Medicine ao PROSPERO (International Prospective Register of Ongoing Systematic Reviews), uma iniciativa do Centre for Reviews and Dissemination (University of York, UK).

Vale ressaltar que o apoio de uma revista conceituada como a PLoS Medicine é um impulso considerável ao PROSPERO.

PROSPERO é um novo banco internacional de registros de revisões sistemáticas e que passou a operar (aceitar registro de revisões sistemáticas) em 22 de fevereiro de 2011. Foi oficialmente anunciado em um encontro internacional ocorrido no dia 18 de fevereiro de 2011 em Vancouver, Canadá, onde se discutia os protocolos para registros de revisões sistemáticas.

Uma característica que que chama atenção no PROSPERO é que o registro da revisão sistemática pode ser feito mesmo que o pesquisador não tenha ainda realizado a busca de artigos que serão incluídos na revisão, através de um conjunto mínimo de informações tais como a declaração da pergunta de investigação, população, etc.

Essa é uma iniciativa importante uma vez que o viés de publicação a favor de ensaios com resultado positivo é frequente e se dá desde a publicação de artigos individuais até a de revisões sistemáticas. É uma estratégia interessante, também, porque assim passa-se a ter uma melhor informação e divulgação sobre o que se está pesquisando no mundo, desde que todos registrem, é claro. E aqui entre nós, não sou muito afeito a essa idéia de resultado positivo.

Mas o que fundamenta todo esse esforço, me parece ser a tentativa de redução de incertezas, ou se preferirem, o aumento de evidências. Isso, portanto, nos remete à questão da evidência científica.

O Artigo 215 do Código do Rei Hamurabi (1948-1905 a.C.) na Mesopotâmia determinava que:

[…] Se o médico faz uma operação grande ou cura um olho doente, ele receberá dez shekels de prata. Se o paciente é um homem livre, ele pagará cinco shekels. Se ele é um escravo, então seu proprietário pagará dois shekels em seu benefício. Mas se o paciente perder sua vida ou um olho na operação, então as mãos do médico serão cortadas.[...] (1)

É arriscar-se demais querer dizer que o interesse na busca da evidência científica na medicina teve como fonte de inspiração o artigo 215, embora, não deixe de ser um motivo e tanto!


Por outro lado, naqueles tempos a tuberculose pulmonar era descrita assim:

[…] O paciente tosse muito, sua saliva algumas vezes tem sangue, sua respiração soa como uma flauta. Sua pele é fria e úmida, mas seus pés são quentes. Ele transpira muito e seu coração tem ruídos tumultuados.[...] (2)

Naquele contexto histórico e social, talvez fosse a evidência que se podia ter. Porém, para o médico contemporâneo, deixaria muito a desejar. Ou talvez a tuberculose fosse tão frequente que o valor preditivo positivo da descrição acima fosse mesmo muito alto e portanto suficiente. O problema é que ela é vaga, imprecisa e carregada de subjetividade, por parte do paciente ou informante e por parte do médico.

Porém a exigência da evidência científica é algo que temos aprendido e incorporado, ao ponto do Oxford Centre for Evidence-Based Medicine haver ampliado em 2009 os cinco níveis de evidência científica aceitos internacionalmente com subníveis, dobrando para dez o número total níveis (3).



Ao se examinar os níveis de evidência nota-se claramente que justamente a opinião de um, mesmo sendo esse um especialista, é aquela que menos evidência proporciona, - embora seja normalmente esse um que lida cotidianamente com pacientes - enquanto que o nível se eleva à medida que o método se torna mais reprodutível e controlado.

Mas para lembrar Popper (1902-1994), como o raciocínio científico é hipotético-dedutivo, e ao final de cada resposta surge uma nova pergunta, o acúmulo de evidência será sempre insuficiente, dado o espiralado processo do conhecimento científico. Teremos então que elaborar uma revisão das revisões sistemáticas, a síntese das sínteses ? A metanálise das metanálises ?

É bem verdade que isso pode ser um exagero meu, mas que não chega a ser uma hipérbole, afinal o cientista normal, cuidando de sua ciência normal, encontra-se tão ocupado na elaboração de suas perguntas de investigação, gerenciando seus projetos, analisando as soluções, buscando financiamento, que talvez não se interesse em conjecturas especulativas além do seu pragmatismo peculiar e positivo. Mas, haverá sempre quem se interesse.

Seja como for, sou da opinião de que iniciativas como essa são bem-vindas e merecem investimento na sua divulgação e zelo no seu registro. Afinal, quantas novas evidências porventura não poderão surgir ?

Nota: comentário escrito no OpenOffice 3.2, plataforma Linux (Ubuntu 10.10 - o Maverick Meerkat); figura gerada utilizando o Gimp - The GNU Image Manipulation Program

Artigo:

The PloS Medicine Editors. (2011). Best Practice in Systematic Reviews: The Importance of Protocols and Registration PLoS Medicine, 8 (2) DOI: 10.1371/journal.pmed.1001009

Referências:

1.Alves EMDO. Medicina na Idade Média [Internet]. 2008 [citado 2011 Fev 28];Available from: http://e-groups.unb.br/fm/hismed/?pagina=aulas#

2.Alves EMDO, Tubino P. História do diagnóstico clínico [Internet]. 2009 [citado 2011 Fev 28];Available from: http://e-groups.unb.br/fm/hismed/?pagina=aulas#

3.CEBM. Levels of Evidence [Internet]. 2011 Fev 1 [citado 2011 Fev 28];Available from: http://www.cebm.net/index.aspx?o=1025