quinta-feira, 17 de junho de 2010

Futebol científico: A trajetória da bola prevê os resultados do jogo?


ResearchBlogging.org
Uma abordagem científica do futebol foi publicada no PLoS One ontem (16.06.2010). Três cientistas de universidades americanas e do Departamento de Ciências da Computação e Matemática da Universitat Rovira i Virgili de Tarragona na Espanha, publicaram o trabalho Quantifying the Performance of Individual Players in a Team Activity”. O timing da publicação parecia ideal. No mesmo dia a seleção espanhola fazia sua primeira partida no Mundial da África do Sul e todos (até os suiços) esperavam que o jogo contra a seleção suiça fosse um treino a mais para a excelente seleção espanhola. Neste aspecto, os preparativos falharam. Pelo imponderável que faz do futebol o esporte mais popular do planeta, a “Furia” foi derrotada pela desacreditada seleção helvética.
Voltando à publicação (e esquecendo a decepção de ver uma seleção de jogo bonito e ofensivo ser derrotada por um time retranqueiro): os autores desenvolveram um programa computacional que analisa a trajetória da bola e atribui pontos para passes feitos com precisão e por passes que resultem em chutes a gol. Segundo a explicação do último autor (citado no blog da Nature), o sistema de pontuação valoriza o chute a gol e não o resultado final: "There's lots of luck involved in actually getting it in".  
A partir deste sistema, creio que começo a entender o problema da Espanha no futebol: Somente a trajetória da bola em direção ao gol e o papel de cada jogador neste aspecto entra no sistema do programa, que calcula as habilidades do time e dos jogadores.  Entendo muito pouco de futebol, mas a minha intuição brasileira me leva a pensar justamente ao contrário deste programa, NÃO importa a trajetória da bola, o que interessa é que ela entre no gol. O gol de Maicon contra a (poderosa) Coréia do Norte confirma (a mim me parece) este aspecto. A trajetória foi muito improvável mas o resultado fundamental. Veja esta frase “the program follows the ball, it assigns points for precise passing and for passes that ultimately lead to a shot at the goal. Whether the shot succeeds doesn't matter.”  Como assim? Para mim é o contrário. O programa não valoriza o gol? Acho que eles não entenderam o próprio significado da palavra goal, o objetivo do jogo. Mesmo para mim que nunca consegui jogar futebol, sempre foi muito evidente que goal é o objetivo do jogo, ou seja o objetivo é que a bola ENTRE e não somente chutar a bola na direção do gol. 
Apesar de tudo isto, quando o programa foi usado para analisar os dados da copa da UEFA em 2008, os índices obtidos se correlacionaram, e as manifestações de repórteres e técnicos que avaliaram os jogos. O que isto significa? A trajetória da bola e a intensidade do ataque se correlaciona, em média, com o  desempenho, mas esta não é a base da emoção no futebol. O que traz emoção ( e muitas vezes, decepção) é a frequencia com que os resultados saem desta análise. O que os autores não mostraram é o valor preditivo positivo da sua abordagem. Qual a probabilidade que uma análise como feita pelo programa desenvolvido preveja o resultado da partida? Quer a minha opinião? Ainda deve estar muito baixo o valor preditivo deste programa. 
“A ciência estrita - a ciência matematizável - é alheia a tudo que é mais valioso para o ser humano: suas emoções, seus sentimentos, suas vivências de arte e justiça, suas angústias metafísicas.”
Ernesto Sábato.
com as minha desculpas por citar um argentino em plena Copa.

Duch, J., Waitzman, J., & Amaral, L. (2010). Quantifying the Performance of Individual Players in a Team Activity PLoS ONE, 5 (6) DOI: 10.1371/journal.pone.0010937

Um comentário:

  1. E futebol, vamos admitir é pura emoção!
    Cláudia

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